terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Anabela

O coração de Anabela congelou de tal forma que ela não se permitiu mais sonhar. Saía toda noite, numa busca insana por sorrir, nem que para isso fosse necessário virar todos os shots da casa. E em meio a bebedeira, seu corpo era inflamado pelo desejo e ela sempre acabava dormindo em camas desconhecidas. Cansou de acordar, olhar para o lado e perceber que tinha cometido mais um erro, erros altos, baixos, morenos, loiros, fortes ou franzinos. A cabeça latejava de ressaca, mas o que mais pesava era a ressaca moral, uma pressão que ela mesma se permitia sentir desnecessária, num mundo onde cada um faz o que quiser de si mesmo. Vestia-se rapidamente e saía o mais rápido possível, sem deixar qualquer rastro, não queria e não podia ser reencontrada. Acordava e sumia, na tentativa de esquecer o que fez. Até que um dia, um cara a convidou para ir a "um lugar mais tranquilo" e ela foi, mas queria uma grana por dar a ele o privilégio da sua companhia. O sexo foi como qualquer outro, permitiu-se ser usada, mas o diferencial foram as notas que o cara deixou em cima da cama. Ela então mandou o mundo pro inferno e, antes dava seu corpo, agora o vendia, como produto de sua mesquinha existência. E chorava, enquanto os caras se divertiam com ele. Anabela não era mais Anabela. Agora ela era outra pessoa, sem nome, sem sonhos, sem esperanças.

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