Depois de um temporal que durou meses, depois de dias e noites vegetando em cima de uma cama, achando que a vida era um presente que eu não queria ter recebido; depois de meses dormindo demais e paradoxalmente passando noites em claro, de pensar no quanto eu queria morrer em cada fôlego que tomava; depois de viver no limite, com os pés no último centímetro do alto de um prédio e de entrar mar a dentro, rezando para que a rainha me tomasse em seus braços, me levando pra morar na profundeza sem que nunca achassem meu corpo, devorado por seres famintos ainda desconhecidos para o ser humano. Depois de um vale de lágrimas, de calar meus gritos de dor nos travesseiros para que os vizinhos não chamassem a polícia. Depois de porres dignos de um colapso hepático, de misturas de drogas lícitas e ilícitas em grandes quantidades em uma mesma noite, rezando para ter uma overdose e acharem meu corpo de pele alva, sem vida, sem cor, sem luz.
Eis que surge um amanhecer inesperado em meio às minhas trevas. Uma ponta de raio de sol chamou minha atenção e ofuscou meus olhos acostumados à escuridão. E minha mente temerosa se abriu. E a luz do amor entrou rompendo aquele círculo vicioso de dor e desespero, e eu me lavei nas águas doces da esperança, bebi o néctar de um amor correspondido, vesti a minha melhor roupa e saí mundo afora. E as portas se abriram. E eu lembrei quem eu era e descobri uma força dentro de mim que foi implantada no meu DNA pelos meus antepassados, uma força que os fez sobreviver à guerra e à fome. E eu, dotada naturalmente para resisitir às maiores calamidades, não podia me entregar. Então resolvi lutar. Não aceitei o fardo da derrota, recusei o desânimo, expulsei a dor e subi, e aos poucos o fundo do poço foi ficando mais longe. Ao longo da escalada fui ficando mais forte, meus braços estavam prontos para abraçar o mundo. Minhas pernas se tornaram fortes para correr em busca dos meus sonhos. E o meu coração experimentou a pureza de um amor verdadeiro. Foi quando minhas asas antes atrofiadas se abriram e eu pude alçar o vôo mais lindo, um vôo direto para a felicidade.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2014
Renascimento
Anabela - Parte 2
ANABELA, PUTA, PROSTITUTA, VADIA, VAGABUNDA. Era assim que as senhoras distintas da sociedade a chamavam quando descobriam que seus maridos pervertidos haviam se deitado com ela, as senhoras desciam ao mais baixo nível numa busca cega de culpar Anabela e não ver que os interessados no sexo prazeroso que talvez não tivessem em casa era eles, seus maridos e pais de seus filhos, honrados nos negocios, de conduta publicamente ilibada, mas que durante uma "reunião" ficavam de quatro implorando que Anabela os surrasse com um chicote e apertasse a coleira em seus pescoços. E ela, boneca inflável sem sentimentos e com uma pele que não era de borracha, penteava os longos cabelos castanhos encaracolados naturalmente nas pontas, enquanto fumava um cigarro e ouvia as senhoras de classe perderem a classe gritando escandalosamente em frente a sua janela. Anabela, então, apagava o cigarro, cobria o corpo nu com uma camisola cheia de ursinhos e estrelas que ganhara há tempos de sua mãe, colocava os fones de ouvido e adormecia, como se o mundo a sua volta e a consequência de seus erros não importasse. Não mais.
terça-feira, 23 de dezembro de 2014
Anabela
O coração de Anabela congelou de tal forma que ela não se permitiu mais sonhar. Saía toda noite, numa busca insana por sorrir, nem que para isso fosse necessário virar todos os shots da casa. E em meio a bebedeira, seu corpo era inflamado pelo desejo e ela sempre acabava dormindo em camas desconhecidas. Cansou de acordar, olhar para o lado e perceber que tinha cometido mais um erro, erros altos, baixos, morenos, loiros, fortes ou franzinos. A cabeça latejava de ressaca, mas o que mais pesava era a ressaca moral, uma pressão que ela mesma se permitia sentir desnecessária, num mundo onde cada um faz o que quiser de si mesmo. Vestia-se rapidamente e saía o mais rápido possível, sem deixar qualquer rastro, não queria e não podia ser reencontrada. Acordava e sumia, na tentativa de esquecer o que fez. Até que um dia, um cara a convidou para ir a "um lugar mais tranquilo" e ela foi, mas queria uma grana por dar a ele o privilégio da sua companhia. O sexo foi como qualquer outro, permitiu-se ser usada, mas o diferencial foram as notas que o cara deixou em cima da cama. Ela então mandou o mundo pro inferno e, antes dava seu corpo, agora o vendia, como produto de sua mesquinha existência. E chorava, enquanto os caras se divertiam com ele. Anabela não era mais Anabela. Agora ela era outra pessoa, sem nome, sem sonhos, sem esperanças.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2014
Um segredo europeu
Dá o doce e depois toma de volta. Dá corda até quase eu me enforcar e depois vai embora. E eu coro. Minha face entrega o quanto eu fico de queixo caído te vendo passar. Teu jeito príncipe dinamarquês de sorriso fácil tocou fundo, abalou minhas estruturas e despertou minha curiosidade. Como será o cheiro da tua pele e o toque dos teus lábios? Como será a tua companhia? Será que poderíamos ser felizes numa amizade franca verdadeira e até colorida? E em meio a essas indagações, vou dando asas ao meu pensamento curioso e criando um personagem que tem teus olhos claros e teu corpo que me desperta uma vontade quase que incontrolável de abraçar. E nesse meu mundo paralelo utópico tu és o protagonista, divago, e crio histórias e me perco... Ainda que tu não saibas, te nomeio: meu segredo europeu.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
Fera
E teus olhos febris ainda me atingem naquela foto de sorriso enigmático, que esconde um lado teu que talvez só eu tenha conhecido e ainda conheça, e que não mudou com o passar desses anos todos. Teu passageiro sombrio sabe perfeitamente quem sou e do que sou capaz e tu o escondes, assim como eu, atrás de uma fachada politicamente correta, uma máscara de bons cidadãos, cumpridores das leis, com relacionamentos estáveis e profissões sólidas, ambição controlada e impostos pagos sem reclamar. Mas a minha passageira sombria sabe o que tu escondes embaixo desse uniforme, e o deseja e sente teu gosto na boca só de fechar os olhos, e tu tanto a decifras que ela se expõe pra ti, unicamente a ti. E eu preciso manter ela sob controle, preciso manter minha vida correta, que me sustenta e sustenta esse mundo colorido em que vivo. Mas as vezes... as vezes a fera se solta e nem que seja em pensamento eu me mostro pra ti, nua de alma, despindo a obrigação de fazer tudo certa e evidencio o que tenho de pior para uns e de melhor para outros. Me exponho, minhas fragilidades e minhas decadências, meu desejo doentio por um gole e uma tragada a mais... tudo numa busca frenética de relaxar profundamente, como nada no mundo o faz! Vou fechar os olhos e tentar dormir, acorrentar esse monstro que vive dentro de mim e que sente profundamente a tua falta
terça-feira, 18 de novembro de 2014
O mar
Os dias tem sido regados por altos níveis de tensão, complicações desnecessárias, tentativas frustradas de recobrar o fôlego para continuar.
Me vejo em meio a um emaranhado de relações difíceis, problemas banais mas atormentadores, brigas sem razão. Nestes momentos, meu senso de autodestruição aflora e quase não consigo segurar o impulso de me entregar ao submundo da madrugada, das drogas lícitas e ilícitas, das relações volúveis e da iminência da morte, morte que me fascina quando pessoalizada. E antes que eu tome qualquer decisão de que eu vá me arrepender depois, movo o mundo para sair do agito das metrópoles e corro para o litoral. Sinto o cheiro do mar e instantaneamente desligo meus mecanismos de defesa, tão necessários para nossa sobrevivência em sociedade. O som das ondas quebrando, o horizonte infinito, a areia e a água nos pés fazem com que eu me aproxime da resposta para questão mais difícil: qual o sentido da vida? E ali, contemplando a grandeza da natureza que jamais será dominada pelo homem, respiro fundo o ar puro e minhas energias se recarregam, pois o mar me faz sentir mais perto das coisas divinas, que não existem para serem entendidas, mas sim contempladas através da nossa consciência. É como se eu me conectasse com a força criadora de tudo, ela entrasse na minha mente para me mostrar o quanto a vida é efêmera, que a ambição é um mal necessário para sobrevivermos, mas que não deve estar sempre presente, nem conduzir nossas vidas. Me desligo dessa ânsia por ter tudo sob o meu controle, por querer planejar minuciosamente o futuro e sinto que o que realmente importa e nos fortalece é observar o mundo com os olhos de uma criança.
sexta-feira, 17 de outubro de 2014
Diálogo inventado, monólogo
Hoje eu só queria conversar contigo, olhar em teus olhos mais uma vez sem a menor pretensão de querer te beijar ou afagar teu rosto, ou sentir entre meus dedos teus finos cabelos sempre arrepiados e difíceis de arrumar, muito menos sentir teu abraço ou sentar no teu colo como naquele último feriado que passamos juntos. Hoje eu queria saber como tu estás, conhecer o homem que tu te tornaste e, se pudesse, saber se ainda tem um pouco daquele menino que eu conheci há tanto tempo, com olhos febris e temperamento louco, que não hesitava em empinar um litro de uísque ouvindo uma música bem melosa. Queria saber o que pensa desse país que caminha de mal a pior, como é viver no teu estado e tão longe da família, como é ser pai. Na verdade, por ora, me contentaria em ser uma assombração e ver teu dia-a-dia, tua casa, conhecer tua esposa e poder pegar tuas filhas no colo, tão lindas, tão pequenas, tão frágeis, mas que tenho um carinho tão grande por elas como se fossem da minha família. Queria relembrar contigo nossas loucuras, dos milhares de porres que tomamos juntos, da vida social que eu tinha contigo, da alegria que tu aparentavas ter e que depois disse pra mim o quanto sofria por baixo dos panos. Me contentaria em dividir um café, numa tarde chuvosa, num barzinho isolado e te contar do quanto eu penso em ti todos os dias, num desejo inconsciente de te ver feliz. Mas principalmente, queria saber se, por acaso ou desengano, se em algum momento, tu pensas em mim...