sexta-feira, 14 de março de 2014

Separação

 Acendi um cigarro e fumei lentamente, como num ritual, como que para acalmar a minha dor. Enquanto isso, ele juntava as coisas dele e colocava desajeitadamente numa mala, decidido a ir embora. Eu já tinha gastado demais a minha saliva, tentando convencê-lo a não ir, falando que ainda existia amor e que a gente podia reconstruir nossa vida, que levou anos para ser construída. Essa separação não poderia acontecer e entre os goles de uísque sem gelo, vi minha maquiagem borrar meu rosto inteiro de tantas lágrimas que caiam. Se não fosse um pouquinho de orgulho que ainda existia em mim, eu teria me grudado nos pés dele na vã tentativa de impedi-lo de ir, teria gritado, ameaçado porque eu não podia perder aquele amor. Foi a pior noite da minha vida, a rotina nos desgastou, nos fez cansar um do outro até que o elo se rompeu. Lutamos tanto para construir uma vida ao lado de uma pessoa, é muito tempo que empenhamos nesta tarefa, mas em um breve pulsar, num ato de coragem ou covardia alguém coloca um basta em algo que não nos fazia mais feliz. E parte-se para outra, amanhã é um novo dia e teremos em nossas mãos outras chances de encontrar a felicidade em alguém.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Amor



Senti o nariz arder enquanto meus olhos marejavam-se nas lágrimas. Depois elas correram quentes e sem destino, uma atrás da outra porque eu não pude mais suportar a dor que dominava meu peito e minha mente. Recusei um beijo quando ele saiu, pois estava brava por uma besteira qualquer, como sempre. Ele puxou meu cabelo forçando-me a olhar para ele e mesmo assim, com amor, me beijou e eu só disse um "tchau" seco, cheio de rancor e indiferença se ele ia voltar ou não. Mas depois vem o arrependimento, como um ácido que te corrói por dentro, chegando a doer fisicamente, dando um nó na garganta. E se aquele fosse o último beijo? Qual seria o tamanho da minha culpa se eu não o visse mais? A vida é tão rara e mais uma vez eu me esqueci disso. Mas daí ouvi o barulho do carro, ele voltou! Meu coração se encheu de alegria e eu tive vontade de chorar mais ainda. Quando a gente ama, a gente cuida e tem medo de perder, um medo que amarra e que faz eu querê-lo sempre perto de mim, diante dos meus olhos... porque o que eu sinto é o mais puro e raro AMOR.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Dilema

Tanto a dizer, mágoas guardadas lá no canto mais escuro da mente, coisas pequenas mas não insignificantes e que eu não consigo verbalizar, falar a quem precisava ouvir, até gritar para que as pessoas entendessem que o que parece ser um grão de arroz, na verdade é uma trave no meu olho. O dia a dia faz com que as coisas fiquem corriqueiras, tudo vira banalidade e não vale a pena começar uma discussão por qualquer coisa, qualquer motivo, na maioria bobos mas que na verdade incomodam. Os dias vão passando e a gente vai engolindo a ausência, a distância desce pela garganta arranhando emaranhada com a falta de romantismo. As horas ficam vazias, sem sentido, os dias passam sem a mínima pressa, os ponteiros do relógio soam altos e lentos nos meus ouvidos enquanto espero uma ligação, um e-mail, uma pequena demonstração de sentimento, uma flor arrancada na rua, uma bala que fosse. E é essa ausência de provas que faz com que eu duvide de todos os sentimentos que a boca verbaliza, mas que parecem não vir do coração. Sinto-me como uma flor que não é regada e vai murchando aos poucos, perdendo a essência da vida, no caso, do amor. Sinto-me como um poço que vai secando, dolorosamente. A questão é que não posso reclamar aquilo que me falta se não consigo dizer que falta. Parecerei tola quando subitamente disser que queria mais demonstrações de amor, mais provas do que diz sentir. Enquanto não resolvo esse dilema, sigo aguentando firme a frieza da rotina, a rispidez da ausência e a falta de amor em abundância.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Vazio



Deixei tudo como estava, só peguei a minha bolsa, bati a porta e saí. Saí sem rumo, não me pergunte onde eu estava indo, só sabia que tinha que sair, tinha que respirar, o ar parecia não entrar em meus pulmões. Em meio à anotações, batons e moedas, encontrei uma velha carteira de cigarro e acendi um deles, que desceu doce pela garganta sedenta. Eu não queria companhia aquela noite, ainda não existia algo que preenchesse o meu vazio, um vazio que não tem cara, não tem nome, é só um buraco no peito que sangra sem parar, não importa o que eu faça ou com o que eu tente curá-lo, ele está sempre ali. Depois do cigarro entrei num táxi e pedi para o motorista colocar uma música no rádio e só rodar, rodar, rodar. Quem sabe eu visse algo que fizesse valer a pena eu descer do carro. Como se não bastasse tudo isso, ele ainda me dá um nó na cabeça cada vez que me liga. Tenho uma dificuldade imensa de acreditar no que ele diz, me jura amor mas são só palavras. - Pare o táxi - Disse enquanto tirava a carteira do bolso para acertar a corrida. Vi um bar com algumas pessoas interessantes e resolvi descer, queria ver o que tinha de bom e lá tocava Coldplay e Radiohead. Sentei em um banco e pedi uma dose de tequila, pura, e mais uma, duas e três. Foi quando o vazio virou em lágrimas e uma imensa vontade de gritar, mas eu não gritei, só senti as lágrimas correrem quentes pelo meu rosto. Me sentia um monstro, a criatura mais horrorosa da face da terra. E o vazio personifiquei: o nome dele é Stuart, meu companheiro naquela madrugada, no trago e na busca infinita de dias em que eu me sinta completa.

2014



Mais uma chance nos é dada de fazer as coisas de forma diferente de tudo o que já fizemos. Quando trocamos o calendário, é como se nossa alma se revestisse de esperança, depois de ver a mesma esgotada ao final dos doze meses do ano anterior. Que este ano seja mais leve, com dias mais coloridos, que o inverno chegue cedo e demore a se despedir, que tenhamos mais abraços, mais beijos, mais amor, mais olhos nos olhos, ouvidos atentos e que possamos nos doar mais a quem amamos e tirarmos um pouco os olhos de nosso próprio umbigo. Que a primavera venha doce e perfumada, que os dias de chuva venham acompanhados de um chá e risadas, que nossos passos sigam firmes em direção dos nossos sonhos. Enfim, que 2014 seja um ano repleto de felicidade para que, ao final, possamos renovar as esperanças mais uma vez, baseados nas boas lembranças do ano que vai findar.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Meu presente de 2013




Lhe encontrei numa noite fria, no último dia do mês que dizem que é o mês do desgosto. Virou a meia-noite, virou a minha vida. Eu não sabia mais conquistar alguém, nem queria ser conquistada, estava lá de corpo presente, esbanjando um sorriso falso e uma simpatia que é minha, mas o coração mais fechado do que o cofre do banco central, rodeado de espinhos venenosos chamados "medo". Não estava nos meus planos você. Não estava nos meus planos me aproximar de você, muito menos deixar você se aproximar de mim. Mas bastou algumas horas de conversa, seus argumentos que me deixavam sem palavras, o espelho que você colocou em minha frente me mostrando o quanto eu posso ir além. Desde aquela noite não nos desgrudamos mais, casamos antes de namorar, eu não queria nada sério, você dizia que a gente já estava vivendo algo sério, eu não queria conhecer teus pais, mas não pude resistir aos teus olhos me pedindo para ir vê-los como presente de aniversário, era seu aniversário, eu não podia negar. E desde aquele dia eu me entreguei, me entreguei sem medidas, sem medo de me mostrar, você já conhece quem eu sou e esse meu jeito louco, intenso, covarde, medroso, pessimista de ser. Eu sou sua agora, me dei para você, porque eu não sei cuidar de mim. Hoje meus planos são outros, meus vícios são outros, mais saudáveis e bem mais surpreendentes. Hoje não me imagino sem você, sem acordar todos os dias do teu lado, sem ganhar teu beijo antes de sair para o trabalho, sem contar os minutos esperando você chegar. Se você não estiver comigo, não há futuro, não há sonhos para buscar. Antes eu não tinha medo da solidão, estava acostumada com ela. Hoje o que mais temo no mundo é um dia ter que viver sem você, porque o que eu sinto é aquele velho sentimento da menina sonhadora, os sonhos são os mesmos de quando eu tinha dezesseis anos, como se você tivesse apagado todas as marcas e ressalvas que ficaram de desamores antigos. E eu não quero nada menos do que viver o resto dos meus dias com você do meu lado. Nada menos do que realizar meus sonhos com você para vivê-los e comemorá-los juntos. Não quero nada menos do que ver meu nome com o teu sobrenome acrescentado e ver nossos sobrenomes juntos nas princesas que vão nascer desse nosso amor. Não quero nada menos do que dar meu último suspiro sorrindo pra você e olhando nos teus olhos, para assim, adormecer em paz. 

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Time e o garoto do sobrenome


O som grave das guitarras e baixos, as batidas secas dos tambores, o dedilhar do piano, o suspense do primeiros acordes anunciando a canção que vem no momento inesperado... e de repente eles soltam a voz, gritam palavras de um ser arrependido que não viu a vida passar e lá se foram dez anos pelo caminho, ainda que seja jovem. Um dia vou dizer que dez anos se passaram, mas ainda não alcançamos uma década desde nosso primeiro encontro naquele bar, numa noite quente e as promessas fáceis e os planos que nunca deram certo. Vi a vida seguindo, você alcançando seus objetivos, uma namoradinha só pra dizer que tem, segredos que só a mim você confessou... foram tardes juntos, filosofando, falando da vida, das teorias da (in)existência de Deus, das teorias da conspiração, dois corações pulsando, e refletíamos e tentávamos entender tudo e você sempre me dando aulas sobre socialismo, feudalismo, capitalismo, comunismo, todos os "ismos" existentes entre o céu e a terra. E Pink Floyd foi e sempre será a trilha sonora de dois jovens que nada sabiam e nada sabem da vida, mas que viram-se tomando rumos e caminhos diferentes, ainda mais depois que a maldição foi quebrada, como algo que tinha que ser feito, para que o ciclo se fechasse. Sinto falta das bebidas fortes, do rock tocando e ensurdecendo. E o ciclo se fechou. Será?