terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Anabela

O coração de Anabela congelou de tal forma que ela não se permitiu mais sonhar. Saía toda noite, numa busca insana por sorrir, nem que para isso fosse necessário virar todos os shots da casa. E em meio a bebedeira, seu corpo era inflamado pelo desejo e ela sempre acabava dormindo em camas desconhecidas. Cansou de acordar, olhar para o lado e perceber que tinha cometido mais um erro, erros altos, baixos, morenos, loiros, fortes ou franzinos. A cabeça latejava de ressaca, mas o que mais pesava era a ressaca moral, uma pressão que ela mesma se permitia sentir desnecessária, num mundo onde cada um faz o que quiser de si mesmo. Vestia-se rapidamente e saía o mais rápido possível, sem deixar qualquer rastro, não queria e não podia ser reencontrada. Acordava e sumia, na tentativa de esquecer o que fez. Até que um dia, um cara a convidou para ir a "um lugar mais tranquilo" e ela foi, mas queria uma grana por dar a ele o privilégio da sua companhia. O sexo foi como qualquer outro, permitiu-se ser usada, mas o diferencial foram as notas que o cara deixou em cima da cama. Ela então mandou o mundo pro inferno e, antes dava seu corpo, agora o vendia, como produto de sua mesquinha existência. E chorava, enquanto os caras se divertiam com ele. Anabela não era mais Anabela. Agora ela era outra pessoa, sem nome, sem sonhos, sem esperanças.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Um segredo europeu

Dá o doce e depois toma de volta. Dá corda até quase eu me enforcar e depois vai embora. E eu coro. Minha face entrega o quanto eu fico de queixo caído te vendo passar. Teu jeito príncipe dinamarquês de sorriso fácil tocou fundo, abalou minhas estruturas e despertou minha curiosidade. Como será o cheiro da tua pele e o toque dos teus lábios? Como será a tua companhia? Será que poderíamos ser felizes numa amizade franca verdadeira e até colorida? E em meio a essas indagações, vou dando asas ao meu pensamento curioso e criando um personagem que tem teus olhos claros e teu corpo que me desperta uma vontade quase que incontrolável de abraçar. E nesse meu mundo paralelo utópico tu és o protagonista, divago, e crio histórias e me perco... Ainda que tu não saibas, te nomeio: meu segredo europeu.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Fera

E teus olhos febris ainda me atingem naquela foto de sorriso enigmático, que esconde um lado teu que talvez só eu tenha conhecido e ainda conheça, e que não mudou com o passar desses anos todos. Teu passageiro sombrio sabe perfeitamente quem sou e do que sou capaz e tu o escondes, assim como eu, atrás de uma fachada politicamente correta, uma máscara de bons cidadãos, cumpridores das leis, com relacionamentos estáveis e profissões sólidas, ambição controlada e impostos pagos sem reclamar. Mas a minha passageira sombria sabe o que tu escondes embaixo desse uniforme, e o deseja e sente teu gosto na boca só de fechar os olhos, e tu tanto a decifras que ela se expõe pra ti, unicamente a ti. E eu preciso manter ela sob controle, preciso manter minha vida correta, que me sustenta e sustenta esse mundo colorido em que vivo. Mas as vezes... as vezes a fera se solta e nem que seja em pensamento eu me mostro pra ti, nua de alma, despindo a obrigação de fazer tudo certa e evidencio o que tenho de pior para uns e de melhor para outros. Me exponho, minhas fragilidades e minhas decadências, meu desejo doentio por um gole e uma tragada a mais... tudo numa busca frenética de relaxar profundamente, como nada no mundo o faz! Vou fechar os olhos e tentar dormir, acorrentar esse monstro que vive dentro de mim e que sente profundamente a tua falta

terça-feira, 18 de novembro de 2014

O mar

Os dias tem sido regados por altos níveis de tensão, complicações desnecessárias, tentativas frustradas de recobrar o fôlego para continuar.
Me vejo em meio a um emaranhado de relações difíceis, problemas banais mas atormentadores, brigas sem razão. Nestes momentos, meu senso de autodestruição aflora e quase não consigo segurar o impulso de me entregar ao submundo da madrugada, das drogas lícitas e ilícitas, das relações volúveis e da iminência da morte, morte que me fascina quando pessoalizada. E antes que eu tome qualquer decisão de que eu vá me arrepender depois, movo o mundo para sair do agito das metrópoles e corro para o litoral. Sinto o cheiro do mar e instantaneamente desligo meus mecanismos de defesa, tão necessários para nossa sobrevivência em sociedade. O som das ondas quebrando, o horizonte infinito, a areia e a água nos pés fazem com que eu me aproxime da resposta para questão mais difícil: qual o sentido da vida? E ali, contemplando a grandeza da natureza que jamais será dominada pelo homem, respiro fundo o ar puro e minhas energias se recarregam, pois o mar me faz sentir mais perto das coisas divinas, que não existem para serem entendidas, mas sim contempladas através da nossa consciência. É como se eu me conectasse com a força criadora de tudo, ela entrasse na minha mente para me mostrar o quanto a vida é efêmera, que a ambição é um mal necessário para sobrevivermos, mas que não deve estar sempre presente, nem conduzir nossas vidas. Me desligo dessa ânsia por ter tudo sob o meu controle, por querer planejar minuciosamente o futuro e sinto que o que realmente importa e nos fortalece é observar o mundo com os olhos de uma criança.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Diálogo inventado, monólogo

Hoje eu só queria conversar contigo, olhar em teus olhos mais uma vez sem a menor pretensão de querer te beijar ou afagar teu rosto, ou sentir entre meus dedos teus finos cabelos sempre arrepiados e difíceis de arrumar, muito menos sentir teu abraço ou sentar no teu colo como naquele último feriado que passamos juntos. Hoje eu queria saber como tu estás, conhecer o homem que tu te tornaste e, se pudesse, saber se ainda tem um pouco daquele menino que eu conheci há tanto tempo, com olhos febris e temperamento louco, que não hesitava em empinar um litro de uísque ouvindo uma música bem melosa. Queria saber o que pensa desse país que caminha de mal a pior, como é viver no teu estado e tão longe da família, como é ser pai. Na verdade, por ora, me contentaria em ser uma assombração e ver teu dia-a-dia, tua casa, conhecer tua esposa e poder pegar tuas filhas no colo, tão lindas, tão pequenas, tão frágeis, mas que tenho um carinho tão grande por elas como se fossem da minha família. Queria relembrar contigo nossas loucuras, dos milhares de porres que tomamos juntos, da vida social que eu tinha contigo, da alegria que tu aparentavas ter e que depois disse pra mim o quanto sofria por baixo dos panos. Me contentaria em dividir um café, numa tarde chuvosa, num barzinho isolado e te contar do quanto eu penso em ti todos os dias, num desejo inconsciente de te ver feliz. Mas principalmente, queria saber se, por acaso ou desengano, se em algum momento, tu pensas em mim...


Sonhei com você

Ah, que inconsciente cruel! Aquela ferida que a vida me fez, tão dolorida, que quando estava adormecida, eis que sonho com aquela alma que tanto amei, relembrando de tudo outra vez, do cheiro do cabelo, da textura da pele, quase sentindo outra vez a aspereza da barba crescendo, os olhos enigmáticos e frios de sempre; sim, aquele ser que me fez descobrir o amor, o doce sabor de ser amada e que depois me fez conhecer a mais profunda dor, a dor de perder alguém para a vida, de ora tê-lo, ora não tê-lo, num vai e vem sem fim durante anos, até que um dia ele embarcou em um avião e se foi...pousou seu coração em outro ninho e por lá ficou, construiu uma família e hoje deve ser feliz como nunca pude ser capaz de fazê-lo... E eu segui a minha vida, me refiz, tratei de buscar novos sonhos, encontrei um paradeiro, mesmo depois de vagar feito alma penada por aí... considerei essa ferida curada, um assunto morto e enterrado, ainda que meu coração as vezes teime em dizer que o futuro a Deus pertence, como aquele homem uma vez me disse, ainda que lá no fundo arda uma esperança de reviver aquele amor quase infantil e fabuloso... e então eu sonho com tudo! Acordo como se o tivesse visto ontem, ainda sentindo a dor de outrora, a saudade que nunca teve fim, a inveja por ele estar tão bem longe de mim... e percebo que depois de tudo me perdi, não sei quem sou, não sei o que eu quero, tenho medo do futuro... ele foi um vendaval que me fez perder o norte... hoje me contento com o que a vida me deu, uma vida mediana, pacata... mas sei que lá no fundo eu posso muito mais, eu poderia ir muito além... serei uma eterna inconformada com os meus dias, mas alguém que não sabe o que fazer para mudar!

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Crise

Estou trancada em um lugar escuro e frio. Cansada de gritar, gritar e não ser ouvida. Cansada de querer realizar sonhos e os mesmos se esfacelarem diante de mim, sem dó. Cansada de conviver com o egoísmo desenfreado que me esmaga feito uma formiga diante do ser humano que a pisa sem perceber. A dor me aperta a garganta como duas garras fortes que eu não posso impedir, ainda que use todas as minhas forças. Não há vida nos meus olhos, meu comportamento não passa de um teatro pra tentar parecer normal. E o amor que sinto vem morrendo aos poucos, como quem acaba de receber a notícia de que está com câncer e não quer aceitar a morte breve. Morre o que sinto enquanto eu morro junto, nessa relação parasita entre o que sou e o amor que carrego.