sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Tolices





Um velho CD toca suas notas, lentas e melancólicas, enquanto percebo que a noite está caindo. O dia foi longo, mais longo do que normalmente é, as horas brincaram com a minha paciência já que a tua ausência me causa pavor. Eu sonho porque tu existes, eu tenho planos porque tu fazes parte deles e sem ti tudo perde o sentido. O sentimento que por ti cultivo (e digo cultivo porque cuido do que sinto como quem cuida um lindo jardim) é o que me torna uma mulher melhor. Eu quero acordar do teu lado todos os dias que me restam nesta terra e só de pensar em uma ausência tua, permanente, eu perco o controle. Me internem num hospício se um dia tu partires, porque eu vou gritar sem parar essa dor, se é que serei capaz de suportá-la. Eu não sei amar na medida certa, eu não sei medir o amor, eu só sei amar demais. Hoje o dia foi longo porque às vezes me parece que, além da lentidão do relógio, tu não tens pressa de chegar enquanto eu conto os segundos e invento algo para me distrair. Eu não sei cuidar de mim...

A queda


Eu te amei como podia e como sabia amar. Usei todas as dores do passado como lições para ser a melhor mulher possível pra você. E onde você estava quando eu mais precisei? O clima lá fora é o reflexo do meu interior: chuva, chuva, temporais, inundações, bagunça, lixo espalhado por todo canto. Não, eu não preciso que você me entenda muito menos que concorde comigo. Só quero que me aconchegue em seus braços e diga que ali é o meu lugar. Porque não há lugar no mundo que eu mais queira estar do que além de dentro do teu abraço. Então não me julgue, pelo menos você, pelas palavras que disse sem pensar. Me cure. Me segure, falta pouco pra eu cair. Você será forte o suficiente para suportar?

Texto mudo


 
Sinto-me presa e envolta de paredes que ninguém vê além de mim, com água sendo jogada para dentro desta sala invisível e eu respirando o pouco ar que me resta. Me perdi nos dias, no tempo, na data de hoje, nos dias da semana, todos eles têm sido iguais, cheios de espera, espera por uma presença que preenche, mas ainda falta algo. Estou tão presa no calendário, neste ano que teima em não terminar, nesta falta de condições de planejar e a iminência destas datas de fim de ano que nos obrigam a ser felizes só me irritam e me fazem querer ficar dentro do meu apartamento, isolada, sem internet e telefone desligado. Ao mesmo tempo que estou presa e tento me soltar, sou atacada por uma apatia, uma imobilidade: é um querer sair mas não querer socializar. Prefiro ficar quieta no meu canto do que esboçar sorrisos falsos. E eu volto a ouvir as mesmas canções que ouvia no ano passado, nesta mesma época, inquietantes, agoniantes. O que dependia de mim foi feito e ficar na dependência da boa vontade alheia é que me mata por dentro. E tudo volta a não fazer sentido, tudo volta ao estado inicial de sempre, deserto e perdido, vendo a areia voar com o vento, o silêncio brutal, esmagador da desesperança. É como se eu gritasse e ninguém me ouvisse, como se eu caísse e ninguém diminuísse o passo para me olhar e me ajudar a me reerguer. E tem alguém me ouvindo agora?

domingo, 8 de dezembro de 2013

Feridas





Eu ainda quero ser o ser negro e solitário que vaga pelas ruas nas madrugadas frias e sombrias com as névoas de julho. Ainda quero ser o mendigo jogado na calçada, sujo, indigno de um olhar de carinho, ignorado pelo sistema e por todos que por ele passam, mas não pelos cães que também tem a rua como lar. Ainda quero remoer todas as palavras não ditas, todos os sentimentos engasgados na minha garganta e gritar que dói, dói demais ser vítima de julgamentos alheios. Hoje eu entendo quem se isola do mundo, que se esconde debaixo das cobertas, quem foge sem rumo. Entender e se fazer entender exige cortes, exige dores, lágrimas e desespero. Enquanto tudo desmorona, queria virar a bola velha da criança da vila que desceu rua abaixo na água da chuva forte que caiu.

Boca de jacaré




Eu quis me expressar, achei que pisava em terreno seguro. Pensava que nossa intimidade estava estabelecida e eu confiava em você. Entreguei os pontos, mostrei minha cara, sem máscaras, fui sincera como não se pode ser, e a inocência mais uma vez, me fez culpada de um crime que não cometi. E a minha língua, maior do que a boca me trouxe julgamentos injustos. Minha fala é fatalista, é oito ou oitenta, “faca na bota”, mas meus atos, perpassados pelas tuas palavras persuasivas, são baunilha, puro mel e suaves como algodão doce. Você tem o dom de quebrar o meu gelo, adoçar minhas amarguras e sempre me fazer refletir, usando meus próprios argumentos contra mim. Eu vou deixar os dias passarem, a chuva lavar a dor e o bálsamo divino me fazer alguém melhor a cada dia.

Voo



Vou fechar meus olhos e meus braços se transformarão em asas de borboleta. Meu olhos tudo poderão ver, mas nenhum ser humano será capaz de me enxergar. O dom da invisibilidade. Minha mente está vazia e pronta para alçar voo. Do alto, vejo a cidade fluindo, como o sangue flui na veia de todos os mortais. Mexo meus braços, que agora são asas grandes e negras como a noite, e elas movem-se com a suavidade de uma mariposa, pairando no ar. Olho para baixo, a um passo do precipício, respiro fundo e me jogo... sinto o vento frio no meu rosto, a adrenalina fazendo o coração bater forte e logo a calmaria... o silêncio de uma dor que já não dói mais, um coração que não mais apanha, mágoas que vão sumindo enquanto adormeço.

O que tem do outro lado do céu?





O que tem do outro lado do céu? O que tem atrás das estrelas, lá onde meus fracos olhos humanos não podem enxergar? Quisera eu ver o que tem no fundo do céu azul e no escuro da noite, já que ainda preciso de lentes para ver o que tem na minha volta... E se nesta vasta via láctea, aos olhos humanos, ou neste pó do Universo que é nossa galáxia, não estivermos sós? E se existe vida inteligente passeando pelo céu, vivendo, se reproduzindo, aprendendo e ensinando em outro planeta que nossa pequena ciência não foi capaz de catalogar? Somos só uma das muitas e muitas galáxias, só um planeta em meio há tantos planetas, as estrelas que vemos a noite são como os grãos de areia de todos os mares... Não, eu não temo que haja vida lá fora. Eu não creio nessa visão popularizada de ET’s verdes com cabeças grandes e olhos imensos que nos espiam como presas, até porque de nós não há muitas coisas boas para serem levadas ou imitadas. Eu acredito que haja VIDA INTELIGENTE fora daqui, porque aqui, meu bem, conta-se nos dedos os seres humanos dotados de inteligência, não me refiro a inteligência versus ignorância, me refiro à inteligência do amor, do bom senso, da cordialidade e da compaixão. Me recuso a acreditar que essa raça humana medíocre, egoísta, mesquinha, seja a única que existe nesse universo todo. Somos tão pequenos que agora que nosso planeta está destruído em nome do progresso, usamos o dinheiro que ganhamos com essa destruição para financiar pesquisas em outros planetas, na vã esperança de que estes sejam possíveis novos lares para nós. Minha alma chora ao ver nossa natureza perdida, nossa água poluída, nossas matas derrubadas e principalmente, nossos animais acuados, sem lar, sem comida; espécies dependendo da boa vontade humana para não serem extintas. Eu acredito que a cada geração de humanos que nasce, nosso DNA se renova, espero que para melhor. Minha filha vai aprender a amar e respeitar o mundo em que ela vai viver desde dentro do meu ventre e está em nossas mãos tornar nossos filhos melhores para nosso mundo. Não importa se não vai dar certo, se serei uma em um milhão a ensinar esses valores para meus descendentes,  mas quando eu morrer e virar adubo para essa terra, morrerei tranquila, pois a semente do bem e do amor deixarei plantada aqui.