Dentro de mim duas forças: de um lado uma que quer que eu acredite que o amor já passou na minha vida; de outro, uma que faz ter esperanças de que o amor anda por aí, esperando a hora certa para me encontrar ou ser encontrado. Uma força que me faz sorrir por acreditar em dias melhores, em sentimentos verdadeiros; outra que me faz fria e descrente no ser humano, na vida, no amor. E eu no meio, sem saber para que lado seguir, que rumo tomar. Uma me protege, me cerca e não me permite sofrer novas decepções. E a outra dá "a minha cara à tapa", me joga na vida e só o fato de ter esperanças já muda meu olhar sobre as coisas. Acreditar ou desconfiar? Agir com paixão ou com frieza? Vermelho quente ou azul frio? "Encasular-se" ou voar? Na defensiva ou atacar? Abraços apertados ou apertos de mãos suaves? Tantos anos e tantas histórias pra contar. O passado é nosso alicerce e o amanhã é desconhecido. Enfim, a vida é angustiante.
domingo, 26 de agosto de 2012
A perda
Acordei com a maquiagem borrada, depois de uma noite inteira inundando o travesseiro de saudade tua e essa não foi a primeira vez isso aconteceu nos últimos tempos. O mal dos relacionamentos está na rotina que nos desgasta e afasta um do outro. Está nas mágoas guardadas há anos e que pesam tanto agora, por não terem sido trazidas à tona, conversadas no momento certo. Te perdi por não perceber a raridade que eu tinha na minha frente. Eu estava mergulhada no meu egoísmo, nos meu desejos, no "eu em primeiro lugar". Não abri espaço pra te conhecer, te admirar, te respeitar, cuidar, amar. Entrei nessa relação sem me entregar, sem deixar você entrar no meu coração e curar todas as feridas que sangravam e que não cicatrizavam. Te magoei e você aprendeu a não confiar mais em mim, por minha própria culpa e eu não me perdoo por isso. Passo os dias trancadas nesse apartamento com vontade de bater em mim mesma, socar meu próprio rosto pois eu mereço. Eu mereço cada lágrima que tenho derramado, cada dor que tenho sentido por ter sido tão cega, burra, exigente quando não deveria ser. Eu que me considero tão inteligente cometi o maior erro da minha vida: permitir você se afastar de mim. Perder você. E isso pode ser revertido?
domingo, 12 de agosto de 2012
Efervescência
E tu despertas meus desejos mais primitivos, uma vontade de fêmea, uma vontade de saciar todos os teus instintos, te satisfazer enquanto meu homem, meu dono, meu macho. Pra ti eu me exibo de todos os ângulos, descubro meu nu, cada canto do meu corpo. Me fotografo, me ensaio, preparo tudo minuciosamente. Um banho demorado, depilação completa e bem feita, um creme de cheiro doce que aguce teu olfato, teu paladar, todos os teus sentidos. Um cheiro de baunilha e perfume de flores pra te seduzir. Um olhar marcante de olhos bem maquiados e a boca vermelha feito a maçã do pecado. Sim, pecado. Quero ser tua perdição, teu descaminho, teu refúgio dessa vidinha medíocre que levas. Um cabernet sauvignon para acompanhar esse encontro, aquecer nossos corpos, deixando minhas bochechas vermelhas e disfarçar minha timidez. Uma langerie vermelha para combinar com a boca e com o sangue que corre freneticamente nas minhas veias. E nessa hora nada mais me importa a não ser nós dois. Estou ao teu dispor.
O ódio que habita em mim
Odeio tons pastéis. Odeio gente morna. Gente que não comete erros, que não tem do que se arrepender. Odeio quem acha que meu jeito louco de viver e encarar a vida é errado. Gosto de gente intensa, que não perde tempo, que sabe o que quer, que não tem medo - nem da lei, nem de ninguém. Odeio quem fala baixinho, toda delicadinha, toda nhê-nhê-nhê. Quem se faz. Quem posa de santa. Quem banca a boa moça quando na verdade tá loca pra aprontar. Odeio gente falsa. Odeio gente que quer aparecer apagando o brilho dos outros. Que trapaceia, banca o esperto. Odeio críticas quando não peço sugestões. Odeio gente pidona, que não perde uma oportunidade de se vitimizar. Odeio quando invadem meu espaço, quando me ignoram, quando são mal educados, arrogantes, orgulhosos. Odeio quando tenho que ser hipócrita para me proteger. No fim das contas, todo mundo só quer se salvar.
Revirada
Ontem a noite eu revirei algumas caixas velhas que há muito não eram mexidas. Encontrei um antigo poema que você copiou da internet mas me entregou, com o peito estufado, feito quem queria me impressionar. Quando eu li vi de cara que as palavras não haviam saído da sua cabecinha mas mesmo assim achei incrível o fato de você ter feito o esforço de escolher um poema, copiá-lo com sua letra e entregá-lo a mim. Quando reli o poema, sentada no chão, revivi aquele momento. Senti sua falta, mas principalmente senti falta de quem eu era quando estava com você. Eu pensei que você era o amor da minha vida, aquela pessoa que eu tenho buscado há tanto tempo. Mas quando você foi embora, vi que você não era essa pessoa e a minha busca teve de ser retomada. Uma busca de um amor, uma relação que talvez não exista no mundo real, só dentro dos meus sonhos. Ter você era ter sossego, a tranquilidade que só tem quem não precisa procurar mais nada. Uma paz que só tem quem encontrou sua outra metade. E agora sigo meus dias vazios e solitários, feito bicho que se perdeu de seu grupo, uma abelha fora do enxame, uma formiga fora do formigueiro.
Vida campeira
Sentei na beira do fogo, espantando o frio que assola o lombo, enquanto via o sol nascendo pela janela. Enquanto a água do mate ia aquentando, peguei a cuia e fui ajeitando a erva, cevando, devagarinho, nosso amargo. O catre estendido, vidros fechados ouço a porta do banheiro se abrir: de lá sai o dono da casa, vestido para a lida do dia; senta ao meu lado, passo-lhe a cuia enquanto ele vai explicando quais as tarefas que estão por vir, o cardápio que quer para o almoço, me mostra as roupas que quer que eu costure, que se rasgaram, já gastas pelo uso diário. Vamos saindo porta afora, o lombo dos potros e do crioulo se equipara ao campo: tudo branco da geada da noite passada. Penso no sofrimento da minha horta, nos brotos que a essa hora já estavam castigados pelo ar gelado. Me despeço do marido, que encara o ar gelado da manhã, encilha o cavalo e sai à trote para o campo, arrebanhar o gado e trazer para a mangueira. Abro o portão do galinheiro, encho o coxo dos cachorros e colho uns temperos na horta. Sigo fazendo minha toalha de mesa bordada, ainda é cedo para preparar o almoço. As horas passam vagarosamente. Como um dia qualquer de quem vive no campo.
Um nerd dos olhos cor de mar
Começou de súbito. Aqueles olhos azuis me perseguindo no fundo da sala. Um verdadeiro nerd, alto e forte para sustentar tanta inteligência. Fala calma e pausada, algumas gírias, tom de voz suave feito veludo. Uma música para meus ouvidos. Por trás das lentes do "óclinhos", aquele mar inundando meu mundo tão castanho... E eu me arrumando toda, ficando o mais bonita possível para ser notada por ele. Contando as horas para começar as aulas, sempre tão corridas e repletas de cálculos. E sempre pensando em estratégias para me aproximar. Tentando vencer a ansiedade que me consome todos os dias, me impulsionando a chegar na frente dele e dizer: "faço qualquer coisa para poder fazer parte da tua vida", ou então, "espero que você represente o fim das minhas buscas por alguém especial para dividir a vida comigo". Por ele eu encararia todo aquele curso complicado e tão difícil. Ele seria o meu motivo para estar lá todas as noites. Foi quando ele se aproximou e puxou conversa. Estremeci inteira só de estar tão perto. Meu corpo reagiu em tom de voz suave, em sorrisos tímidos e meus olhos certamente me entregavam. Eu queria ele só pra mim. Mas engano meu foi pensar que um homem daqueles, um tão bom partido estaria por aí, dando sopa, sozinho, só esperando eu me aproximar. O carro parou e uma mulher mais esperta que eu o pegou e o levou para os braços dela. Ela venceu a corrida para conquistar o coração dele. Eu cheguei atrasada. Perdi o páreo. Perdi.
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